Dia do Peru

Hoje é o dia do peru, aquele bicho-alimento que só habita nossas mesas nessas datas festivas. Longe dos Estados Unidos, nunca fui convidado para um jantar que não fosse em 25 de dezembro cujo prato principal consistisse no peru. Parece que é só nesse período que dão insetos para esses animais nojentos comerem… Porque tem dó aquela papada, né não?

Hoje também é dia de santista gastar o estoque de fogos de artifício que ficaram obsoletos no último domingo. Comemorar os 4 a 0 covardes também não tinha sentido… Melhor fazer de conta que é ano-novo e ficar enchendo a paciência daqueles que querem dormir.

Hoje ainda é dia de encontrar aquela família que sai das trevas nessa época do ano. Parece que vivem enterrados o tempo todo, e quando chega o Dia do Peru aparecem para a celebração do galináceo. E os parentes vêm munidos de todos os comentários maldosos, das críticas ao comportamento (principalmente quando estão no carro voltando para suas cavernas), do fígado pronto para lotarem de álcool de segunda – leia-se espumantes nacionais de R$ 5,00 – e, principalmente, de dicas para você se tornar um perdedor como eles. Ah, e como não podia deixar de ser, no amigo secreto que sua tia resolveu marcar, um desses tios te tirou e vai presenteá-lo com uma linda meia Lupo preta que ele ganhou do chefe na comemoração de fim de ano da empresa.

Na televisão, hoje é o dia em que um tiozinho alemão vestido com o resto da cortina num palácio caríssimo celebra a Missa do Peru (do galináceo), e tem aquelas tias velhas, solteiras, que precisam assistir ao velhinho gringo repetindo palavras da Bíblia.

Apesar de todos os problemas, todos os anos somos obrigados a enfrentar isso – e até colocamos aquele CD Christmas A Capella tentando entrar no clima. Assim, como tive um ano de muitas mudanças importantes – de casa (para o apartamento de meus sonhos), de emprego (graças à bruaca do Senac que me demitiu e me permitiu assumir de vez minha empresa e pavimentar o caminho para o sucesso), de pensamentos, de padrão de vida, etc. –, tenho de ficar feliz com o fim do ano e agradecer a todos aqueles amigos que estiveram próximos… e também os distantes, mas que em algum momento ofereceram um suporte, mesmo que involuntariamente. E é para esses que dedico este post. Feliz 2012, cambada!

É assim que me sinto.

15 dias sem telefone

Mudança de casa, tudo perfeito, tudo lindo, tudo funcionando… Finalmente uma vista de nossa varanda, finalmente uma casa em que não ficamos nos esbarrando nos corredores, onde não precisamos fechar o criado-mudo para abrir o armário… Tudo maravilhoso, menos o NetPhone.

Cinco dias úteis antes de me mudar, ligo para a Net para fazer a mudança de endereço. E olha que sou Skavurska na veia: tenho HD Max, Virtua e NetPhone. Foi aí que começou a aparecer o sapo com meu nome amarrado. Eles ligavam para agendar a visita do técnico no telefone do antigo morador do apartamento. Ligaram 5-6 vezes para o cara, e nenhuma para mim. E no sistema constava que “foi tentado contato com o assinante, mas sem sucesso”.
OK, mudamo-nos e resolvi arriscar ligar os aparelhos – incrível! Tudo funcionando. Até terça… E ali começou o martírio. Ligou uma moça dizendo que era necessário mudar o contrato e que ela só poderia agendar o religamento para quinta. Está bem, dois dias sem TV, Internet e telefone não vão matar ninguém. Na quinta, apareceu o primeiro técnico, Ivan, deixou tudo funcionando, menos o gravador digital e o telefone. Liguei na central uma, duas, três vezes, e foi marcado para o sábado a visita de um técnico para religar tudo. Das 08h às 12h00.
Sabadão, acordei cedo, esperando ter meu telefone. 12h30 e nada. Ligo na Central, e dizem que não estava agendada visita técnica. Peço para que olhem o cadastro e vejam um telefonema de quinta à noite. “Ah, sim, ele fez uma observação para marcar a visita, mas não marcou no sistema. Agora só tenho horário para segunda”.
Segunda de manhã recebo um telefonema dizendo que houve um problema no sistema e que o técnico só poderá ir na quinta-feira. E aí foi o momento mais engraçado: Carlos Eduardo, o gênio, com seu óculos escuro na nuca. Olhou para o HD Max e comentou que nunca tinha visto um aparelho assim. Ligou para os amigos para saber o que fazer. Lógico que saiu de lá sem ter feito nada, depois de 2 horas de tentativa e erro. Onde treinam esses funcionários?
Ligo na central à noite, explico o problema (o NetPhone não está ligado, o aparelho de HD Max veio com defeito) e falam de mandar dois técnicos no sábado novamente, um para o telefone e outro para o HD Max. Peço para que se certifiquem de mandar um aparelho de HD Max novo. “Ok, senhor”. Sábado de manhã, chega Emerson da Net, para cuidar da televisão, com um aparelhinho simples, de televisão simples. Começo a rir, nervoso. Diz que ele não pode fazer nada, porque a ordem de serviço dele era para cuidar de tv digital.
Ligo para a central novamente e digo que meu aparelho de HD Max queimou, que não funciona de jeito nenhum. Agendam para o mesmo dia a ida do Douglas, que logicamente chegou sem o aparelho de HD, que telefona para o supervisor para ver se este tem um aparelho. Fica agendado para domingo de manhã, e quanto ao telefone nada. Nessa hora já tinha conhecido a numeração inteira da Central da Net (ouvidoria, setor técnico, compra de aparelho, etc.).
Domingo, Luís, o outro técnico que iria, teve um pepino e não vai poder comparecer, mas no dia seguinte, segunda, Diógenes, seu supervisor, vai. E vai mesmo, com um ajudante. Com um aparelho em mãos. Só que o ajudante estava lá por acaso e precisa sair no meio do serviço, e Diógenes estava cuidando da linha lá embaixo. Logo, preciso esperar mais uma hora até Diógenes subir e eu finalmente poder gravar as coisas. Mas o NetPhone nada.
E nada… e nada… 14 dias sem telefone, só porque mudei de endereço. A cada ligação que faço para a Central, a informação é nova: “Não foi dada baixa. Em cinco horas, está resolvido”. “Não foi feita a instalação.” “Seu contrato foi cancelado.” “A Embratel não liberou seu número de telefone.” E sempre vai resolver em, no máximo, 24 horas, quando ligarão para a ida de outro técnico.
Não teve jeito. Acho que, por algum motivo divino, não foi para ter NetPhone na nova casa. Já avisei que técnico da Net ou chega até 10h00 de dia útil, ou não sobe…
E vamos levando a vida.
Após o post e uma bronca pelo Twitter, recebi hoje uma ligação, dizendo que a Embratel leva até cinco dias úteis para habilitar a linha, e que agora foi habilitada. Portanto, segundo a técnica que telefonou, serão 48 horas para a linha normalizar e eu poder utilizá-la, sem haver a necessidade da visita de técnicos. Detalhe: a linha é diferente da que eu tinha no outro apartamento. Detalhe 2: a informação é a mesma dada na segunda-feira retrasada, dia 9.
Vamos ter fé.

Diário de Bordo da Patagônia 3

Começamos cedo hoje: ainda eram sete horas e já estávamos de pé. Um rápido café e subimos os quase 500 metros em ladeira íngreme para encontrar a van que nos levaria a terras chilenas. Assim que entramos, descobrimos que teríamos o mesmo azar do dia anterior: como nosso hotel é o último do roteiro, por ficar mais afastado do centro, sobraram-nos os piores lugares da van. Mas tudo bem.
Ao contrário dos outros dias, hoje estava nublado e assim que adentramos o Parque Nacional Nahuel Hualpi, subindo a cordilheira dos Andes para atravessar a fronteira com o Chile, a chuva nos pegou. E veio com força. A justificativa era a maior proximidade do Pacífico e seus El Niño, corrente de Humboldt e outras mais… A alfândega é uma complicação nunca antes vista: tem-se de passar pelo posto argentino, rodar uns 30 km, passar pelo posto chileno (onde a van é revistada – meio “nas coxas”, é verdade), e aí enfim se está no Chile. Mas todo esse processo vai mais de hora. Na Europa, chega-se em Portugal, por exemplo, e pode-se ir livremente para Itália, França, Alemanha, Espanha, Inglaterra… países que já estiveram em guerra… aqui, na Sudamérica, uma burocracia sem sentido para essa fronteira tão pouco procurada.
Com muita reza, conseguimos diminuir a chuva e a paisagem foi se formando nas janelas embaçadas. Já não era mais Patagônia, mas sim a Selva Valdiviana, sempre encimada pelo vulcão inativo Osorno. A primeira parada foi na linda cidade de Frutillar, que recebe esse nome devido a sua flora exuberante. É uma cidade às margens de um lago de água doce, o Llanquihue, que oferece uma praia muito parecida com as brasileiras, com calçadão, restaurantes “à beira-mar” e construções em estilo germânico, de muito bom gosto. Fomos comer num restaurante alemão, onde pude beber a melhor cerveja de toda essa viagem, uma Colonos lager, feita lá mesmo em Frutillar, para acompanhar um belíssimo filet mignon (minha primeira parilla patagônica). A moeda chilena é uma diversão à parte: tudo se conta em milhares, dificultando muito para se avaliar os preços solicitados, para transformá-los em reais.
De lá partimos para o Pacífico, para a cidade Puerto Montt, uma aberração de feia e mal-gosto. Na verdade, é um dos principais portos de entrada no Chile, com população muito pobre e que serve como dormitório para estivadores e marinheiros. Uma feirinha que vende artigos semelhantes aos oferecidos nas feiras da República completa o cenário, perfumado com cheiro de peixe e óleo diesel. O único ponto alto mesmo foi conhecer o Pacífico.
Na volta, em nosso pau-de-arara patagônico, fomos também agraciados por colegas de viagem que resolveram comprar um queijo caseiro, que empesteou o ar confinado da van. De qualquer forma, valeu e muito o passeio.
Jantamos no próprio hotel, com nossa rica vista para o lago Nahuel Hualpi e demos sorte, o restaurante do El Faro é um dos melhores da região. Uma truta patagônica com abobrinhas, cenoura e um falso caviar branco, com um Cabernet Sauvignon branco delicioso, e uma salada bem temperada de folha verdes forraram o estômago para mais uma noite de merecido descanso.

Diário de Bordo da Patagônia 2

Ô linguinha mais complicada esse tal de castelhano: as pessoas parecem que falam sibilando. Há um som de ch que é impossível para nós, lusófonos, reproduzir. A sorte é que os brasileiros parecem infestar a Patagônia no inverno, obrigando os argentinos a aprender o portunhol. Nossa alegria é quando os ouço falando que há 15 mijones em Buenos Aires – de fato, é muito mijone nessas terras ao sul do Arroio Chuí.

Ontem, saímos de Bariloche e viemos, de transfer, para Villa La Angostura, uma cidadezinha com pouco mais de 11 mil habitantes, também ao lado do Lago Nahuel Huapi. Este é o maior lago da região toda, com aproximadamente 550 km quadrados (segundo Ingrid, a guia de hoje, duas vezes o tamanho da capital federal). Assim que chegamos ao Hotel El Faro, a primeira surpresa – nosso quarto já estava ocupado, e eles teriam de nos colocar em uma suíte, de melhor qualidade. O desconforto são os dois jogos de escada em caracol para subirmos à tal suíte Torre, que fica exatamente sob o farol, de frente para o lago. O quarto tem dois andares, com uma vista maravilhosa, sendo que no andar superior há uma jacuzzi com janelas em quase 180 graus. Não se pode reclamar. A desvantagem é que não existe porta, nem box, para a privada – bom, e os inconvenientes disso nem se precisa dizer.

Conhecemos todo o centro da cidade ontem, na verdade, rodamos quatro vezes, entrando em quase todas as lojinhas, e acabamos jantando numa parilla. Comi um cordeirinho: carne gordurosa, mas saborosa. A Jy, ficou num milanesa. No almoço, tínhamos preferido ficar no hotel, onde fomos agraciados com um delicioso ravióli de truta e uma saladinha Ceasar.

Hoje fomos para a estrada. Pegamos uma excursão, com mais uma cacetada de argentinos numa van – prato cheio para algum terrorista brasileiro –, e seguimos para conhecer os Sete Lagos patagônicos: Espejo, Escondido, Nahuel Hualpi, Falkner, Correntoso e mais dois de nome obscuro (devido ao terrível sotaque castelhano). O passeio vai em meio a dois parques nacionais, onde é possível conhecer um pouco mais da flora patagônica, de arroyanes por exemplo, e também todo esse belo recorte da região (cerros altos, ainda com neve, árvores bem verdes e lagos com água azulzinha). No caminho, paramos em um pueblo para comer um trozo frito – um pãozinho crocante muito gostoso –, e a curiosidade é que os índios de lá têm até DirecTV. Não há mais inocentes nesse mundo, só eu. Depois almoçamos em outra cidadezinha, que lembra Águas de São Pedro pelo tamanho e pela infraestrutura, chamada San Martin de los Andes. Pelo que compreendemos, essas três cidades (Bariloche, Angostura e San Martin) recebem 1,2 milhões de turistas por ano – um número bem impressionante.

Lá comi meu primeiro viadinho, um cervo patagônico, uma carne que parece de porco, com funghi. A Jy ficou no bife de chorizo, delicioso… Sempre acompanhado pelas cervejas artesanais, especialidade da região (onde quer que se esteja, há três tipos de cervejas artesanais: rubia, roja e negra). Quem vem para cá não pode deixar de experimentá-las, fruto da influência germano-suíça.

O que encanta em toda essa viagem é a natureza da Patagônia, única no mundo, com tons que parecem de quadro e de uma riqueza de espécies. E também se tem de reconhecer o talento e a perspicácia dos hermanos para saber explorar tudo isso. Vimos muitas pessoas trabalhando nos parques nacionais, para preservar a flora e a fauna patagônica, cientes do valor que isso tem para o turismo. No Brasil, quando fizemos aquela viagem pelo cerrado/sertão em 2004, me marcou o descaso com a natureza, perdendo-se uma oportunidade de aproveitar interessados em conhecer Minas, Goiás… Aqui se cuida, e muito.

Amanhã vamos ao Chile. Hasta luego!

Diário de Bordo da Patagônia 1

(Se você já tinha visto este post, saiba que ele foi agora atualizado, com fotos e textos.)

Se a viagem de avião não foi a dos sonhos, o mesmo não se pode dizer da primeira impressão causada por Bariloche. Já o aeroporto era acolhedor, todo de madeira, uma coisa bem rural, pelo qual se chega apenas com aviões menores: viemos no Embraer pequeno, que promoveu algumas emoções (sacolejos intermináveis), mas com muita segurança. A cidade é maravilhosa, totalmente ladeada pelo lago Nahuel Huapi, de água azul cristalina (um azul que chama a atenção desde o céu em meio ao estepe desértico patagônico), e pelos cerros – alguns picos ainda apresentam neve, como o Tronador e o Catedral.

Veem-se algumas pequenas playas, de pedra, onde os argentinos e argentinas introduzem seus trajes de banho esquisitos e compridos na gélida água (15 graus) do lago. As casas e bangalôs fazem lembrar um pouco a arquitetura de Campos do Jordão – Bariloche é uma cidade de origem alemã e suíça. Certamente a natureza mais bonita que vi até hoje…O hotel em que estamos também não é de se jogar fora. Um cinco-estrelas de frente para o lago, com uma janela gigantesca no quarto que mais lembra um quadro, produzindo uma sensação das mais românticas… Atendimento impecável, o garçom, no café espresso, brinca de artista e faz uma folha com uma joaninha na espuminha do leite.

Ontem, pouco pudemos fazer além de dormir e recuperar as energias dos cansativos voos matutinos. Mas hoje aproveitamos bem. Nosso hotel fica a 11 km do centro da cidade, mais especificamente da Plaza Civica, e decidimos que faríamos essa distância a pé. Começamos cedo, às 9h30, com o sol ainda fraco e seguimos 6 km até o Cerro Otto, onde se pega um teleférico até o cume. Uma viagem de 12 minutos, a 3 metros por segundo, numa pequena caixinha vermelha, nos leva a 2.400 metros de altura, onde, além da exuberante vista, se pode almoçar num restaurante giratório (faz os 360 graus em aproximadamente 20 minutos). Lá aparentemente é também a terra do São Bernardo – há inclusive um cachorro modelo para se tirar uma foto e levar de souvenir para casa.

Comemos uma truta patagônica (a carne é avermelhada, como a de um salmão) com molho roquefort – infelizmente o atendimento não respeita a beleza do lugar (o garçom recusou a dividir o prato para nós dois) –, tomamos uma cerveja caseira (outra especialidade de Bariloche) e descemos. Mais 5 km, arrebentando as panturrilhas, e chegamos ao centro da cidade. Olhamos as lojinhas na rua Mitre, tiramos foto da bela catedral central e retornamos para o hotel.

Para terminar o dia, umas duas horas de piscina e ofurô e agora sairemos para jantar, provavelmente no Boliche do Alberto – dizemos que tem a melhor parrillada da Patagônia. Ah, detalhe interessantíssimo: como estamos perto do polo Sul, o dia vai até as 22h00. Assim, enquanto escrevo este post, diante do lago, tomando uma Quilmes geladinha, está bem ensolarado e são 20h00.
Amanhã é dia de Villa La Angostura. Vamos que vamos, linda Patagônia.

Update: Acabamos indo jantar no I-Latina, um restaurante de comidas típicas da América do Sul, onde Jy experimentou o Tacú-Tacú peruano, uma espécie de frango ao curry, e eu fiquei num goulash de vitela argentino. Para acompanhar, um cabernet sauvignon de Salta, muito bom. Na saída, chocolatinhos de Mamuschka e um CD de cumbia, para conhecer a dança do insuperável Carlitos Tevez (Sidney Magal fica chique ao lado deles).

 

Patagônia – Diário de Bordo 0,5

E cá estamos novamente na Argentina. Voos internacionais às oito para notívagos realmente não são o ideal. Que horas dormir? Que horas levantar? Para mim, a solução – aliada ao medo de perder a hora – foi virar a noite. Se saía as oito, tínhamos de estar às cinco no aeroporto, certo? Certo, mas esqueceram de avisar a Aerolineas Argentinas disso.

Os queridos funcionários da aviação hermana só começaram a aparecer às seis. Ao menos, tivemos umas duas horas para curtir o lindo Aeroporto de Cumbica, com suas várias atrações, seus espaços de descanso, seus cafés abertos… NOT.

Em Cumbica, de domingo, às seis da manhã, a única coisa aberta é o Free Shop e as bocas irritantes dos brasileiros demonstrando sem parar sua condição de classe média. O espetáculo foi a tiazinha australiana sendo parada na polícia federal porque queria fazer tricô em voo. Perdeu, playboy, suas agulhinhas ficaram aqui! Mas a vergonha é saber que, naquele horário, depois da Polícia Federal, nem café havia onde tomar… palhaçada!

Ah, como estamos de AA, logicamente que as malas não iriam direto para Bariloche. Depois de quase três horas de sono ininterrupto no avião, descemos no Aeroparque, mas fomos obrigados a pegar as malas e fazer mais um check-in, um agradinho das Aerolíneas aos brasileiros.

De qualquer forma, depois de assistir ao primeiro episódio de Glee no avião para Bariloche – e gostar –, finalmente chegamos â exuberante Patagônia.

Em breve, notícias e fotos de nossa jornada por cá, que começou com uma breve caminhada de 13 km hoje pela manhã pela cidade com natureza mais linda do mundo.

Como se identificar com um time!?

16 de janeiro de 2010, Palmeiras 5 x 1 Mogi

Marcos; Figueroa (Wendel), Danilo (Gualberto), Léo e Pablo Armero; Pierre, Márcio Araújo, Willian (Deivyd Sacconi) e Cleiton Xavier; Diego Souza e Robert.
Técnico: Muricy Ramalho.

17 de novembro de 2010, Goiás 0 x 1 Palmeiras

Deola; Márcio Araújo, Maurício Ramos, Danilo e Gabriel Silva; Edinho, Marcos Assunção, Tinga (Leandro Amaro) e Lincoln (Pierre); Kleber e Luan.

Exatamente 10 meses depois, entre os titulares mais o técnico, quantos se mantiveram no time? 2, e o Marcio Araujo definitivamente em posição diferente. Confesso que nem lembrava mais quem eram Figueroa e Leo.

Está realmente difícil se identificar com o time. Hoje, passando pela Turiassú para ir ao cinema, deu uma tristeza olhar para o Parque Antártica. Nem nosso estádio temos mais…

A Globo é incrível

Apesar de toda a raiva que sinto das Organizações Globo e de seu funcionário mais dedicado, Ali Kamel, é inegável a qualidade das produções da emissora, excluindo-se sempre os tendenciosos noticiários. Só posso bater palma para as séries e minisséries que estão apresentando nesse ano.

Depois do espetacular Som e Fúria em 2009, agora eles vieram com uma programação de arrepiar. Os humorísticos Vida alheia, SOS Emergência e Uma grande família poderiam estar em qualquer canal norte-americano disputando espaço com os similares de lá; são tão bons quanto. Nas terças à noite, Daniel Filho rodrigueou Sérgio Porto e, ao retratar dez personagens femininos em As Cariocas, mostra que é o melhor diretor brasileiro em atividade (porque Fernando Meirelles trabalha menos): muito humor, sensualidade, roteiro bem conduzido… coisa de mestre.

As noites de quinta, então, são os deslumbre. Depois de rir com a canastrice divertidíssima do Agostinho, vem, do núcleo Guel Arraes, o emocionante ClanDestinos. Trata-se de um interminável teste de atores para uma peça, aparentemente amadora, em que se narram as histórias de vida dos vários aspirantes a artistas. Na primeira semana, o “causo” da mineirinha que vem ao Rio com seu sax na esperança de conseguir uma vida melhor à custa de seu talento, mas que acaba sofrendo com as armadilhas da cidade grande, e, na segunda, o romance entre uma garçonete que almeja o estrelato e seu “capacho” – que a idolatra desde o dia em que ela entra em seu táxi, e abandona sua vida para acompanhar a amada – me deixaram emocionado. Com um detalhe: todos os atores ainda são desconhecidos, mas Guel deixa espaço para que brilhem. Vi agora que é um projeto teatral que acontece há 2 anos no Rio de Janeiro, sob direção do roteirista do programa João Falcão.

A seguir estreou, hoje, Afinal, o que querem as mulheres?, de Luís Fernando Carvalho. Tem a assinatura do diretor, na inovação visual (que começou em Hoje é dia de Maria e seguiu por outras realizações, como o incompreensível Capitu) e na narrativa, sempre recheada de cortes e enquadramentos estranhos, muitas cores e uma música interessantíssima de trilha. Não é algo que me agrade tanto quanto os outros, porém é inegável a qualidade artística do programa. E tem a cereja do bolo, que é a beleza das atrizes da série: Paola de Oliveira e a russinha estavam lindas nesse primeiro episódio.

Por fim, na sexta tem o talento de Bruno Mazzeo, Fabio Porchat, Fabiula Nascimento, entre outros, no Tudo junto e misturado, uma bela crítica social pelo viés humorístico.

A Globo tem seus lixos – como as entediantes e repetitivas telenovelas (ainda que sejam tecnicamente muito bem produzidas), Zorra Total, os programas de auditório, Casseta e Planeta, BBB –, mas tenho de reconhecer que nenhuma outra emissora no país tem a capacidade de realizar tantos programas bons.

Sertanejo Pop Festival

Aconteceu, neste último final de semana, o primeiro Sertanejo Pop Festival em São Paulo, na Chácara do Jockey, e lá estivemos os dois dias. O espaço é muito bom para shows, mas sofre com o velho problema da infraestrutura paulistana tucana: não há transporte público que lá chegue; as vias de acesso são estreitas (Francisco Morato quase em Taboão); a sinalização é péssima; o estacionamento “oficial” é um tiro no peito (R$ 35,00) e, ainda por cima, em barro puro. Por isso tudo, fica abaixo de outros complexos, como o Anhembi, por exemplo, mais adequados à recepção de festivais e grande público.

De qualquer forma, internamente era bem organizado, ainda mais para quem havia adquirido Área VIP do Patrão, uma coisa bem apartheid mesmo, com espaço de convivência coberto, bares e banheiros exclusivos e maior proximidade do palco. Única cerveja à venda: Bavaria, a R$ 5,00 a latinha. Mas foi possível encarar… Para beber, tive de rememorar algo que há muito não me acontecia: mostrar o RG para ganhar uma pulseirinha indicando que sou maior de idade.

Curiosamente, o evento ocorreu na mesma semana em que a Veja SP publicou matéria sobre o sertanejo ter invadido as baladas da Vila Olímpia e ter caído no gosto da juventude rica, sob essa nova alcunha de “universitário”. O que se via entre o público era a confirmação da modinha: garotada entre 14 e 25 anos, usando uniforme (shorts ou saia jeans com bota, nas garotas; camisa quadriculada sobre camiseta branca e calça jeans, nos meninos) e uma idolatria comparável a astros do rock da década de 1960 e 1970.

Dos mais de 10 shows a que assistimos, mais me agradaram Chitãozinho & Xororó (no sábado) e Munhoz & Mariano (domingo). Os outros tinham  uma ou outra música mais agradável, mais dançante (geralmente os batidões), mas quase sempre incluindo em seu “set list” hits de outras duplas e outros estilos. “E daí”, de Guilherme & Santiago, além de ser cantado duas vezes pela própria dupla, foi repetido por Michel Teló, João Bosco & Vinicius e outras duplas menos conhecidas. “I gotta feeling” foi escutado ao menos três vezes.

Um apresentador de Barretos, um tal de Cuiabano Lima, irritava entre as apresentações, e dizia ao final que o “sertanejo conquistou seu espaço”. Não, mentira, aquilo ali não é sertanejo, são apenas idolatrias a astros pop, que fazem de seus shows uma balada (com todos os estilos de música), cujo maior ícone é o garoto Luan Santana.

Havia garotas aguardando, com suas barrigas coladas às grades, enfrentando chuva, sem poder ir ao banheiro, comer ou beber alguma coisa, desde as 8 da manhã de domingo (e o show só começaria às 22h30). Quando inicia seu espetáculo, tudo pré-gravado, são atirados ao palco sutiãs, ursinhos de pelúcia, e vê-se um garoto de 18 anos estafado (havia feito um show no mesmo dia, em Goiânia, e viera em seu jatinho enfrentar novo show).

Fernando & Sorocaba, que era a dupla que mais me interessava conhecer, pelo repertório mais afeito ao country americano, fizeram um show de 40 minutos, em que há uma interrupção de 10 para cantar sucessos eletrônicos. Os dois estavam mais interessados em terminar de gravar sua matéria para o “Repórter por um dia” do Fantástico do que fazer um show que agradasse.

É só idolatria, não é a música sertaneja.

Quem quiser ver mais fotos do evento, pode ir para fotos.

O mistério dos genéricos

ROGÉRIO CEZAR DE CERQUEIRA LEITE

Físico, é professor emérito da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), presidente do Conselho de Administração da ABTLuS (Associação Brasileira de Tecnologia de Luz Síncrotron) e membro do Conselho Editorial da Folha de S. Paulo.

Como consequência da Guerra das Malvinas, quando a Argentina, por ter abdicado da produção própria de fármacos, ficou desabastecida de medicamentos, o governo militar brasileiro aprovou um programa, por mim proposto, de desenvolvimento dos princípios ativos (fármacos) dos 350 remédios constituintes da farmácia básica nacional.

Estimava-se que, em dez anos, seria possível desenvolver, por engenharia reversa, pelo menos 90% desses produtos. De fato, em pouco mais de três anos, cerca de 80 processos já haviam sido desenvolvidos e 20 produtos já estavam sendo produzidos e comercializados por empresas brasileiras.

O sucesso inicial desse projeto permitiu que fosse iniciada por mim uma campanha de esclarecimento sobre medicamentos genéricos, o que não teria sentido sem a produção própria de fármacos.

Precipitadamente, o governo Itamar Franco tentou lançar a produção de genéricos. O poderoso cartel de multinacionais de medicamentos se insurgiu. Ameaçou-nos de desabastecimento, de verdadeira guerra. Derrotou e humilhou o Ministério da Saúde.

Poucos anos depois, esse cartel não somente cedeu prazerosamente ao ministro José Serra, então na pasta da Saúde, como até fez dele seu “homem do ano”.

Seria o costumeiro charme do ministro? Seu sorriso cândido? Senão, qual o mistério?

Como consequência da isenção de impostos de importação para o setor de química fina, da infame lei de patentes e de outras obscenidades perpetradas pela administração FHC, mais de mil unidades de produção no setor de química fina, dentre as quais cerca de 250 relativas a fármacos, foram extintas.

Além do mais, cerca de 400 novos projetos foram interrompidos.

Os dados foram extraídos de boletim da Associação Brasileira de Indústria da Química Fina. Em poucos anos, o deficit da balança de pagamentos para o setor saltou de US$ 400 milhões para US$ 7 bilhões. Quem acha que, com isso, Serra não merece o título de homem do ano das multinacionais de medicamentos?

Também os “empresários” brasileiros do setor de genéricos têm muito a agradecer ao ex-ministro da Saúde, pelas suas margens de lucro leoninas. Basta ver os imensos descontos oferecidos por quase todas as farmácias, que com frequência chegam a 50%. Os genéricos do Serra nada têm a ver com os genéricos que planejamos.

E o tão aclamado programa de Aids do Serra? É compreensível que todos os seres humanos, e talvez também o ministro Serra, tenham se comovido profundamente com a súbita e aterrorizante explosão da Aids. Que oportunidade sem par para políticos demagógicos!

A ONU homenageou o então ministro Serra pelo mais completo e dispendioso programa de apoio aos doentes de Aids de todo o planeta.

Países ricos, com PIB per capita dez vezes maiores que o nosso, ficavam muito aquém do Brasil. Como foi possível? E por que será que, nesse mesmo período, os recursos orçamentários destinados ao saneamento básico não foram usados?

O então dispendioso tratamento de um único doente de Aids correspondia à supressão de recursos para saneamento básico que salvariam centenas de crianças de doenças endêmicas, com base em uma avaliação preliminar. Será que Serra desviou recursos do saneamento básico? Mistério!

Mas persiste o fato de que, durante a administração Serra na Saúde, os recursos destinados ao saneamento, à época atribuídos a esse ministério, não foram aplicados.

Mesmo sem contar mistérios como aqueles dos “sanguessugas” e da supressão do combate à dengue no Rio, entre outros, considero pífia, eminentemente pífia, a atuação de Serra no Ministério da Saúde.